domingo, 30 de outubro de 2011

O BÊBADO NA IGREJA




Um conto do meu amigo Erisvaldo Silva Vieira, que gostaria de compartilhar com todos. Ele descreve uma situação muito frequente em cidadezinhas do interior, onde mistura humor, ficção e realidade. 
Vale a pena conferir!

O BÊBADO NA IGREJA


 
O sino batia chamando os fiéis. O novo pároco celebraria sua primeira missa. Dona Joaninha, Dona Quintina, Marininha e Joaquina chegaram logo cedo, como sempre. Deixaram os maridos sem a janta naquela noite, como em todas as noites de missa. Elas eram beatas. Desde que envelheceram, tornaram-se beatas fervorosas. Arruma-se uma coisa daqui, muda-se uma coisa dali, retira-se uma imagem acolá, troca-se a toalha do púlpito. Tarefas que elas faziam há anos.
Um bêbado para à porta da igreja e, em palavras desconexas, diz que é de Jesus e que vai para o céu.
— Depressa Joaninha, vai fechar a porta da igreja, se esse filho de uma égua entrar aqui, estraga tudo. — Pede Dona Quintina, que não tinha muita papa na língua e que, por isso, já fora advertida centenas de vezes por outros padres. O problema dela era a língua. Joaninha sai às léguas, despeja uma pequena praga no infeliz e bate-lhe à porta na cara.
O bebum não se sente satisfeito. Senta à porta da igreja e começa a bodejar, como se fala no sertão.
— Ochente! Se eu... Num entrar... Ninguém entra. — Decide ele em sotaque de bêbado.
Os fiéis, “solidários”, vão paulatinamente chegando, entrando pela porta lateral. Cada um que observa o pobre ébrio, lança-lhe olhares enojados e todos passam se esquivando dele. O bêbado não para de falar em sotaque de bêbado:
— Sô fie de Jesus, e vou pro céu... Eu... Aconheço... Incrusivi... (faz uma pausa) o milague da multipricação dos pão.
Lá de dentro da igreja, o dono do mercadinho, o padeiro, o radialista, a professora, o doutor, o farmacêutico começam a ficar injuriados com a impertinência do embriagado. Por inúmeras vezes, eles se viram para a porta, aborrecidos. A vontade que dava era pegar o bêbado pelas orelhas. A madre Normalista já não aguentava mais. A senhora respeitada, mulher do juiz da cidade, torce para que algum homem vá tirar o diabo do bêbado da porta da igreja. E o bêbado, em idioma de bêbado, continua:
— Sô fie de Jesus, e vou pro céu... Eu... (faz uma pausa) Aconheço... Incrusivi... O milague da multipricação dos pão.
Nesse ínterim, um sacristão já impaciente, de voz mansa, levanta-se de sua cadeira tendo antes o cuidado de deixar o cálice sagrado limpo. Em passos rápidos dirige-se ao infeliz. Abre a porta central. Pega-lhe bruscamente no braço, levanta-o e começa a empurrá-lo para o meio da rua.
— Vai-te embora, demônio! — Reclama o sacristão em língua de falso sacristão.
— Epa! Demônio, não! Peraê... Eu sou fie... de Jesus e ...vou pro céu... e...
Chega o soldado amarelo, também impaciente, e, já prestes a lhe dar uma sova, ouve o padre novato pedir:
— Não bata nele. Deixe-o assistir à missa. — Ordena o reverendo surpreendendo a todos.
Espanto geral naquela comunidade santa e piedosa de Jesus. O padre enlouqueceu? Quem já se viu deixar esse tipo de gente junto de mulheres castas e respeitadas da cidade? Aqui é a casa de Deus, reclamam outros. Mas, depois de conversar com o clérigo, o bêbado sentou na última cadeira e, a muito custo, conseguiu manter-se concentrado. O soldado amarelo ficara ao lado dele todo o tempo. Precaução. O padre celebra a missa em paz, pelo menos aparente. Já perto do final da cerimônia, o reverendo, ainda um pouco nervoso por ser sua primeira missa, explica justamente a tal da multiplicação dos pães que o bêbedo dizia conhecer. O bebum, quando ouviu isso, arregalou os olhos e ficou de orelha em pé.
— Senta, diabo! — Cochicha o soldado amarelo no ouvido do homem — senta infeliz, se não quando tu sair daqui eu te fecho. Sentou, mas continuou de olhos arregalados, ouvidos aguçados.
O padre explicou:
— Meus queridos, milagroso é Jesus, que pegou cinco mil pães e três mil peixes e alimentou a três pessoas.
Nesse ínterim, o bêbado levantou e disse:
— Epa! Peraí, seu padre, tem coisa errada nessa históra. Mas não conseguiu concluir, pois o soldado amarelo levou-lhe para fora com um beliscão discreto. Terminou a missa. Já estando a igreja fechada, eis que um sacristão se aproxima do padre e comunica-lhe, horrorizado:
— Padre, o senhor errou! Na verdade, Jesus pegou cinco pães e três peixes e deu a cinco mil pessoas.
— Ah, mas deixa pra lá... Próximo domingo eu conserto.
Chegou o outro domingo e novamente o bêbado sentou-se lá no fundo da igreja. Quando já estava a missa para terminar, o padre emendou:
Milagroso é Jesus, que com cinco pães e três peixes alimentou uma multidão de cinco mil pessoas. Nisso, o bêbado levantou lá no fundo e disse bem alto:
-- Também, com a sobra de domingo, até eu fazia esse milágue.
Resultado. Dois meses sem o bêbado poder pisar o sagrado templo, mesmo estando com toda a razão.
Erisvaldo Silva Vieira
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Confira também: http://luardonordeste2011.blogspot.com, blog do mesmo autor.




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